Ensino superior ainda vale a pena

Em 12 anos, o rendimento de quem tem ensino superior caiu 12%, enquanto trabalhadores sem qualificação viram sua renda crescer 41%. Esses dados são de uma reportagem publicada no GLOBO, há dois domingos, por Cássia Almeida e Henrique Barbi. Uma leitura superficial pode levar à conclusão de que não vale a pena mais investir num diploma universitário. Mas a própria reportagem explica que, apesar das perdas recentes, o diferencial de quem possui nível superior segue muito relevante: 126% a mais na comparação com quem tem apenas ensino médio. Se a comparação for feita com trabalhadores sem instrução, a diferença chega a 305%.
Estatísticas compiladas pela OCDE e divulgadas anualmente no relatório Education at a Glance revelam também que, dentre o grupo de nações comparadas, o Brasil apresenta — ao lado de Chile, Colômbia e Costa Rica — os maiores diferenciais de renda em favor de quem possui ensino superior completo. No outro extremo (de países onde o ensino superior faz menos diferença) estão Noruega, Suécia, Austrália e Coreia do Sul.
Basta comparar o perfil das nações nesses dois extremos para deduzir que esse enorme diferencial não é algo de se orgulhar. A principal explicação — não a única — para essa aparente contradição é simples: em países muito desiguais, com uma proporção ainda relativamente pequena de trabalhadores com ensino superior, o diploma tende a fazer muito mais diferença.
No Brasil, um forte vetor a explicar a redução da distância salarial entre grupos de escolaridade foi justamente a ampliação da população com nível superior completo e a diminuição daqueles com escolaridade precária. Os trabalhadores sem instrução foram os que mais viram sua renda crescer em termos proporcionais de 2012 a 2024, mas — felizmente — esse é o grupo que mais diminuiu de tamanho. Representavam 7%, hoje são 4% da força de trabalho. Na contramão, a população com diploma universitário foi de 10% para 18%. Somando todos com ensino médio completo, a variação foi de 40% para 55%.
A ampliação do acesso à educação, portanto, é um fator positivo. Mas está incompleta. Primeiro porque ainda não universalizamos o ensino médio. Também é necessário ampliar muito a educação profissionalizante. Isso sem falar no desafio — imenso — de garantia de qualidade para todos.
No ensino superior também não faltam pontos de atenção. É necessário que ele continue crescendo, mas, além da garantia da qualidade, é preciso olhar para alguns aspectos estruturais. Um deles é o descasamento entre as áreas de formação e ocupação. Desde a década de 1990, estudos feitos a partir do Censo Demográfico mostram que esse é o caso de mais da metade dos diplomados em nível superior, o que só reforça a necessidade de uma formação mais abrangente ou de alternativas para requalificação na vida adulta. Além disso, o estudo “A Evolução da Sobre-Educação no Brasil e o Papel do Ciclo Econômico Entre 2012 e 2023”, do Ipea, revelou um salto de 26% para 38% na proporção de trabalhadores com mais escolaridade do que a exigida para a função que ocupavam.
A educação tem muito a contribuir para o esforço de ampliação de renda com redução das desigualdades. Mas ela não é panaceia. A economia, principalmente, precisa fazer sua parte.
Fonte: O Globo