Tecnologia, personalização e sustentabilidade guiam a formação docente

O debate sobre a formação de professores deve perdurar ao longo de 2025. Nos últimos anos, competências, abordagens pedagógicas e estratégias formativas precisaram ser repensadas para que respondessem ao mundo globalizado e tecnológico que se apresenta. Neste ano, a integração avançada da Inteligência Artificial, desenvolvimento humano e bem-estar, e a transdisciplinaridade são alguns dos temas que devem estar no centro da discussão.
A integração avançada de IA e tecnologias educacionais emerge como uma das tendências de maior impacto na redefinição das práticas de ensino. Para Ana Valéria Reis, consultora educacional e colunista na Ensino Superior, a IA não se limita a substituir ou replicar a mediação humana, mas atua como uma oportunidade que intensifica as metodologias ativas, permitindo, por exemplo, a personalização do aprendizado de acordo com as demandas específicas de cada estudante. Isso envolve recursos como análise de dados em tempo real, identificação de lacunas de conhecimento e oferta de estratégias de reforço direcionadas para promover maior engajamento e autonomia.
Na análise de Oscar Jerez, diretor da Universidade do Chile, a IA pode ser vista como um “terceiro ator” na sala de aula. “Não é apenas uma ferramenta de apoio, mas um agente capaz de oferecer feedback contínuo e otimização de tarefas repetitivas. Com isso, o professor pode se concentrar nas interações mais sofisticadas e no desenvolvimento socioemocional dos estudantes”, afirma. Cleunice Rehem, do Conselho Nacional de Educação (CNE), chama a atenção para “o papel motivador dessa tecnologia, principalmente ao criar experiências de aprendizagem mais dinâmicas, interativas e alinhadas às linguagens e expectativas da nova geração de estudantes.”
Para Karina Tomelin, cofundadora da B42, há necessidade de um letramento específico em IA, tanto para docentes quanto para discentes. A responsável pela série Docência no divã acrescenta que uma integração efetiva de tecnologias também requer habilidades éticas e reflexivas. “Nesse sentido, a interação competente com ferramentas de IA inclui o domínio de prompts práticos, a leitura crítica dos outputs gerados e a análise dos impactos sociais da tecnologia”, diz. Essa tendência demonstra que a IA, se empregada de maneira criteriosa, pode potencializar o processo de ensino-aprendizagem e transformar a atuação docente, tornando-a ainda mais estratégica e centrada nas dimensões humanas e relacionais. Ao mesmo tempo, exige um compromisso com a formação continuada dos profissionais da educação, de modo a garantir não apenas a otimização do aprendizado, mas também o desenvolvimento de habilidades críticas, criativas e éticas.
A aprendizagem socioemocional ganha destaque como uma resposta às demandas por ambientes educacionais mais inclusivos e acolhedores. Washington Lemos, pró-reitor do UniFOA e membro da equipe de formação docente do Eniac, aponta que “a relação professor-aluno será essencial para promover a retenção e o êxito acadêmico”. Cleunice Rehem vai além, propondo o “ensino da felicidade” como habilidade integrada ao currículo, com base nos cinco pilares do modelo SPIRE: espiritualidade, corpo, intelecto, relações e emoções.
Karina Tomelin complementa essa tendência com o “letramento neuro-socioemocional”, que visa a preparar os professores para lidar com a complexidade emocional e relacional das salas de aula. Essa tendência destaca a formação docente como um processo que deve incluir habilidades socioemocionais e empáticas, criando uma educação que valorize não apenas o desempenho acadêmico, mas também o florescimento humano.
Transdisciplinaridade
A adoção de metodologias ativas, aliadas à perspectiva transdisciplinar, representa uma ruptura significativa em relação aos modelos tradicionais de ensino, conferindo maior protagonismo aos estudantes e ampliando suas oportunidades de interação com problemas reais. Para Ana Valéria Reis, as tecnologias baseadas em IA potencializam essa mudança, uma vez que permitem a criação de cenários de aprendizagem personalizados e dinâmicos. “Nessa abordagem, o estudante não se limita a receber conteúdos de modo passivo, mas participa de processos de experimentação, reflexão e construção do conhecimento em colaboração com colegas e professores”.
Cleunice Rehem reforça a importância de atividades como gamificação, projetos e workshops para promover o engajamento e a aprendizagem ativa. Segundo ela, quando incorporados em um design instrucional bem planejado, esses recursos permitem ao estudante vivenciar desafios concretos e desenvolver habilidades como pensamento crítico, criatividade e colaboração. Já Thuinie Daros, da Vitru Educação e também colunista na Ensino Superior, destaca a autorregulação e a metacognição como dimensões centrais para a formação de aprendizes autônomos. “[São] capazes de analisar seus próprios processos cognitivos e, a partir disso, aprimorar estratégias de estudo e resolução de problemas”.
Ao enfatizar a transdisciplinaridade, Washington Lemos propõe ir além das fronteiras disciplinares, conectando diferentes áreas do conhecimento às demandas e práticas do mercado. Essa integração com o ambiente profissional, aliada ao que Thuinie chama de “pedagogia de futuros”, favorece a cocriação de soluções inovadoras para desafios globais e amplia a relevância social da formação acadêmica. “Dessa forma, a convergência entre metodologias ativas e transdisciplinaridade fortalece a inovação pedagógica, promove a formação de estudantes mais resilientes e engajados, e estabelece bases sólidas para o desenvolvimento de competências cada vez mais exigidas pelas sociedades contemporâneas”, destaca Lemos.
Personalização
Ana Valéria enfatiza ainda a importância de um modelo institucional que viabilize a atualização contínua do professor, incentivando-o a experimentar novas metodologias pedagógicas, recursos tecnológicos e estratégias de ensino, “além de compartilhar aprendizados tanto de suas próprias práticas quanto das experiências de seus pares”. Em sintonia com essa concepção, Washington Lemos destaca que o corpo docente constitui o cerne da cultura organizacional das IES, o que enfatiza a necessidade de alinhamento entre as competências dos professores e os objetivos estratégicos da instituição.
Essa perspectiva de personalização dialoga com a ideia de “professores conectados”, proposta por Ceres Murad, da Unidade de Ensino Superior Dom Bosco (UNDB), que envolve a formação de redes de aprendizagem e produção de conhecimento. “Ao adotar esses princípios, consolida-se um sistema de maior flexibilidade e adaptabilidade, apto a responder às demandas dos estudantes e às suas necessidades”, afirma.
Cidadania e sustentabilidade
Com a força da pauta climática, as questões ambientais e globais estão cada vez mais presentes no cenário educacional. Segundo Karina Tomelin, o letramento ambiental é um elemento crucial para preparar os estudantes para enfrentarem desafios climáticos e promoverem a sustentabilidade. Thuinie Daros e Washington Lemos complementam essa ideia com a importância de experiências de aprendizagem global para além da introdução de idiomas ou conhecimentos globais no currículo. “Essa abordagem visa enriquecer a formação dos estudantes e expandir as possibilidades de inovação com soluções interdisciplinares e sustentáveis”, afirma Thuinie.
Na avaliação de Lemos, a educação para a “cidadania planetária” exige que professores desenvolvam competências interculturais, empatia global e capacidade de criar soluções colaborativas para desafios globais e locais. “Essa tendência reforça o papel do professor como um mediador de mudanças sustentáveis e inclusivas”, diz.
Essas afirmações sobre a formação docente foram feitas na nova edição do guia Tendências no ensino superior, elaborado pelo Semesp e pelo Consórcio STHEM em parceria com a revista Ensino Superior. O documento reuniu 81 especialistas para debater as principais tendências de 2025 em diferentes campos educacionais. Faça o download e leia o material completo:
https://www.semesp.org.br/publicacoes/tendencias-no-ensino-superior-para-2025/
Fonte: Revista Ensino Superior