O ensino superior como vetor para o crescimento econômico

O acesso à educação superior cresceu significativamente nas últimas décadas e
isso tem impacto na economia. De acordo com os dados do Censo da Educação
Superior (Inep/MEC), o número é de 9,97 milhões de matriculados em 2023, em
comparação aos 2,6 milhões do ano 2000. Além disso, cerca de cinco milhões
fazem seu curso na modalidade à distância. Nesse percurso, observamos transformações no propósito e no impacto do ensino superior na economia.
As políticas implementadas e as dinâmicas decorrentes demonstram a existência de realidades distintas em países desenvolvidos e em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Em comum está a visão de que a ensino superior ocupa o status de instrumento principal para o progresso da economia. O grande desafio que se apresenta, nesse sentido, é pensar em sistemas educacionais inclusivos que promovam, para além de credenciais para o mercado de trabalho, a autonomia, a cidadania e o bem-estar social.
Recentemente, os economistas Eric Hanushek, da Universidade de Stanford, e
Ludger Woessmann, da Universidade Ludwig Maximilian, de Munique,
apresentaram o conceito de knowledge capital (capital de conhecimento, em
tradução livre). De acordo com os autores, o crescimento econômico no longo
prazo é dependente muito das competências cognitivas da população, ou do
capital intelectual de uma nação.
Nessa linha, a educação é vista como um recurso necessário para a ampliação
da capacidade inovativa da economia e para o desenvolvimento de novos
produtos e processos. Também é facilitadora da transmissão do conhecimento
necessário para compreender e processar as novas informações e implementar
as novas tecnologias, como habilidades cognitivas agregadas, todos promotores
do crescimento econômico.
Esse conceito dá continuidade às principais teorias e abordagens que tratam da
relação entre a educação e a ciência econômica, que tem origem na teoria do
capital humano. Os dados em nível individual, observados tanto num recorte
mundial como no Brasil, corroboram com a relação positiva entre anos de
escolarização e rendimentos individuais, além das questões relativas à
possibilidade de mobilidade social. O Banco Mundial identificou um aumento
nos rendimentos individuais próximos a 17% para os graduados em relação aos
demais níveis de escolarização.
De outra parte, outros estudos, em nível macroeconômico, que trataram da
relação entre qualificação do fator trabalho e o desempenho da economia,
demonstram que a presença de trabalhadores mais qualificados, incluindo
aqueles com ensino superior, além de investimentos em pesquisa e
desenvolvimento, está associada às taxas mais elevadas de crescimento
econômico.
Um levantamento da Universidade Federal de Itajubá mostrou que, para cada
real investido em um estudante do ensino superior, há um retorno três vezes
maior à economia. Outra publicação, de pesquisadores da UFRGS, evidenciou
uma clara relação entre o crescimento do valor adicionado fiscal (VAF)
à presença de instituições de ensino superior nas regiões onde estão inseridas.
Portanto, a educação superior não impacta apenas os indivíduos que dela se
apropriam, mas, principalmente, nos retornos sociais de uma nação e sua
economia.
Diante de tais evidências, a relação positiva entre o avanço educacional e o
crescimento econômico é inegável – e no Brasil, a oportunidade para avanços é
imensa: considerando a participação do trabalho em nosso PIB (40%) e um
incremento de produtividade de 20% com a educação superior, o impacto
estimado é de R$ 0,80 trilhão ao PIB. Somado ao efeito multiplicador do
consumo, a expansão de instituições dessa natureza poderia acrescer R$ 1,76
trilhão à nossa economia.
Todavia, para que possamos obter a plenitude desse potencial, é necessário
investir, concomitantemente, em um ensino básico de qualidade, que garanta
uma formação inicial sólida, além de dar oportunidade aos brasileiros de
alcançar a etapa superior. Precisamos de políticas de estado que tornem esta
uma realidade, numa integração entre instituições públicas e privadas.
A educação é chave não somente para o crescimento individual: é fundamental
para que o Brasil possa alcançar seu lugar como país desenvolvido. Cabe a nós,
como nação e sociedade, agirmos para que isso aconteça – e para que o capital
do conhecimento seja o vetor para um futuro melhor para todos.
Fonte: Gazeta do povo